Universidades Rovuma e Federal do Rio Grande do Sul depositam patente

PARA TRATAMENTO SOLAR DE ÁGUA

Universidades Rovuma e Federal do Rio Grande do Sul depositam patente

As Universidades Rovuma (UniRovuma) e Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) depositaram, recentemente, no Brasil, a patente para o tratamento solar de água, por meio de desinfecção solar de fluído em fluxo contínuo.

A patente para protecção da propriedade intelectual da invenção foi depositada na Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (SEDETEC), ostentando o número BR102020 0016830.

Com o título Sistema e processo de desinfecção solar de fluido em fluxo contínuo, ele foi idealizado, construído e testado por Beni Jequicene Mussengue Chaúque, pela parte da UniRovuma - Extensão do Niassa, e Marilise Brittes Rott e Antônio Domingues Benetti, pela UFRGS.

O sistema compreende um conjunto de aquecedor e irradiador solar, em que, por meio de colectores e concentradores solares, altas doses de calor e radiação UV-A e UV-B são feitas incidir no fluido em fluxo através de absorvedores e reactores, de tal forma que os microorganismos presentes no fluido são inactivados e um grande volume de fluido por unidade de tempo pode ser tratado.

O primeiro relato cientifico da eficácia da desinfecção solar (SODIS) de líquidos contaminados foi apresentado por Acra e seus colegas em 1980. Estes cientistas notaram que quando o soro fisiológico de hidratação oral contaminado por bactérias era exposto à radiação solar, a desinfecção era conseguida após um tempo considerável.

Nos anos seguintes, principalmente nas

 últimas três décadas, várias equipes de cientistas demonstraram que a inactivação de bactérias é conseguida quando a água contida numa garrafa de polietileno tereftalato (PET), de até 1,5 litros, é exposta ao sol por 6-8 horas consecutivas em dias ensolarados, ou por 12 horas em dias com nebulosidade de até 50%.

Apesar da SODIS ser uma técnica acessível e barata de tratamento de água, ela não poderia ser aplicada como uma alternativa de tratamento e distribuição deste precioso líquido em larga escala, pois um tempo consideravelmente longo é necessário para tratar um volume limitado.

Além disso, a SODIS é limitada pela disponibilidade de garrafas PET, que são relativamente menos abundantes nas áreas rurais, onde, provavelmente, a aplicação dessa técnica seria mais necessária.

Foi para buscar uma solução para esta limitação, e para permitir que a SODIS seja aplicável em larga escala, que Beni Chaúque começou, há cinco anos, a trabalhar na ideia de projectar um sistema de desinfecção solar de água em fluxo contínuo.

Alguns protótipos foram projectados, construídos e testados em Lichinga, entretanto, a configuração que apresentou melhores resultados foi, posteriormente, aprimorada no Brasil, na altura em que o docente da UniRovuma se encontrava a estudar para o seu mestrado.

Beni Chaúque explicou que o sistema foi testado, a título experimental, para tratar água contaminada por altas doses de cistos de Acanthamoeba castellanii (microorganismos muito resistentes, incluindo o cloro) e quatro espécies de bactérias (Escherichia coli, Salmonella Typhimurium, Enterococcus faecalis e Pseudomonas aeruginosa).

O sistema eliminou 100% durante todo o período de testes no campo, tratando 1 litro de água a cada 90 segundos. Os testes foram realizados no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) e no Instituto de Ciências Básicas de Saúde (ICBS), no Brasil.

O mesmo foi desenvolvido pensando-se na realidade de Moçambique, onde as taxas de cobertura de água potável continuam desafiadoras, principalmente em áreas peri-urbanas e rurais, que são as que concentram a maior percentagem da população moçambicana.

Este sistema mostrou-se eficaz e com um potencial para ser aplicado como alternativa para o aprovisionamento de água potável em larga escala a baixo custo, em todas regiões de Moçambique, incluindo assentamentos de baixa renda, pois o mesmo utiliza apenas o sol para “transformar” a água imprópria (dos lagos, rios, lagoas, poços, etc) em água potável.

Ele dispensa a utilização de electricidade e de desinfectantes químicos, que são uns dos principais insumos que fazem com que o tratamento convencional de água seja oneroso.

O manuseamento do sistema não carece de profundas habilidades técnicas, o operador apenas precisa ajustar o foco e fazer passar a água contaminada pelo aparato de tubulações e, a saída, a água está pronta para ser consumida ou distribuída, precisando apenas ser mantida em repouso por tempo suficiente para que arrefeça.

Actualmente, mais estudos estão sendo realizados para aprimorar a configuração dos colectores e concentradores solares com o objectivo de aumentar o desempenho do sistema e o volume de água processada por unidade de tempo. As pesquisas visam, também, identificar materiais mais baratos mantendo o alto rendimento e vida útil do sistema.

De acordo com a fonte, neste momento está a decorrer a divulgação da invenção e a procura de financiamento e parcerias para se construir as primeiras unidades, com tamanho optimizado para aplicação em situação real de tratamento e abastecimento de água.

 


Imprimir   Email